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Microsserviços: 5 Lições Aprendidas — Um Olhar Arquitetural

Posted on 26 de novembro de 202526 de novembro de 2025 by victoreboredo.dev@gmail.com

A migração para uma Arquitetura de Microsserviços tornou-se o grande objetivo de empresas que buscam escalar suas operações tecnológicas. No entanto, a promessa de autonomia e agilidade muitas vezes esconde desafios operacionais brutais que não aparecem nos slides de conferências. Antes de desmontar seu monólito, é fundamental entender que adotar microsserviços não é apenas uma troca de tecnologia, mas uma mudança radical na estrutura organizacional e na gestão da complexidade. Neste artigo, revelamos 5 lições práticas — e dolorosas — para garantir que sua decisão arquitetural não se transforme em um pesadelo distribuído.


Introdução: Entre o Discurso Idealizado e a Realidade Arquitetural

A Arquitetura de Microsserviços (MSA) consolidou-se como uma das abordagens mais discutidas e aspiracionais da engenharia de software contemporânea. Parte do seu apelo reside na promessa de autonomia, escalabilidade granular e ciclos de entrega mais rápidos. Em um cenário marcado por sistemas monolíticos envelhecidos, rígidos e difíceis de evoluir, os microsserviços surgiram como um remédio aparentemente óbvio.

Entretanto, a adoção de microsserviços raramente corresponde ao imaginário otimista presente em palestras, artigos e estudos de caso cuidadosamente selecionados. Migrar para uma arquitetura distribuída não é uma mudança apenas técnica: trata-se de uma transformação organizacional, operacional e cognitiva que impacta toda a cadeia de desenvolvimento. O que se descobre, quase sempre tarde demais, é que a complexidade não é eliminada — é realocada e, muitas vezes, ampliada.

Neste artigo, proponho discutir cinco lições fundamentais — muitas delas ignoradas deliberadamente no discurso entusiástico — essenciais para quem avalia uma adoção madura de microsserviços. O objetivo aqui não é desencorajar, tampouco vender promessas; é expor, de forma pragmática e argumentativa, os efeitos reais dessa escolha arquitetural.


1. Não é Sobre o Tamanho: é Sobre a Autonomia como Princípio Arquitetural

O equívoco mais comum na adoção de microsserviços é a obsessão pelo “micro”. Linhas de código, quantidade de endpoints ou granularidade extrema não definem a qualidade nem o sucesso de um serviço. O que caracteriza um microsserviço saudável é autonomia operacional, independência de implantação e propriedade clara de um contexto funcional.

Do ponto de vista arquitetural, isso se traduz em equipes responsáveis por capacidades de negócio inteiras, não por camadas tecnológicas. A abordagem se aproxima mais de princípios de DDD (Domain-Driven Design) e boundaries de negócio do que de métricas superficiais de tamanho.

A autonomia, não a miniaturização, é o mecanismo que acelera a entrega e reduz dependências organizacionais. Como argumenta Werner Vogels (Amazon), é essa propriedade — e somente ela — que permite que equipes operem com verdadeiro senso de propriedade (“ownership”), reduzindo gargalos e aumentando consistência operacional.

Quando o foco recai sobre granularidade e não sobre autonomia, cria-se um ecossistema de dezenas de serviços fracos e interdependentes, que reproduzem os problemas de um monólito — agora distribuídos pela rede.


2. Cada Serviço com Seu Próprio Banco de Dados: Uma Mudança que Reconfigura Toda a Arquitetura

A regra “um serviço, um banco de dados” não é um slogan; é um requisito arquitetural que fundamenta a independência real entre serviços. Abandonar o banco centralizado é abandonar o conforto da consistência ACID forte e adotar um novo paradigma de consistência — mais fraco, mais distribuído, mais complexo.

É aqui que a aplicação de padrões arquiteturais como SAGA se torna inevitável.

Transações Distribuídas: o que Arquitetos Devem Aceitar

Protocolos como 2PC (Two-Phase Commit) garantem atomicidade, mas introduzem acoplamento, baixa disponibilidade e fragilidade diante de falhas de rede — precisamente o oposto do que uma arquitetura distribuída deveria fomentar. Portanto, arquiteturas modernas evitam 2PC não por limitações técnicas, mas por razões arquiteturais e operacionais.

Em seu lugar, surgem abordagens como:

  • SAGA Orquestrada: um orquestrador central conduz o fluxo, disparando passos e compensações.
  • SAGA Coreografada: serviços reagem a eventos e coordenam a transação via comunicação assíncrona.

Ambas exigem que a organização reescreva sua percepção de “transação”. Não existe mais a garantia de que todos os passos ocorrerão juntos. O sistema pode — e deve — tolerar estados intermediários inconsistentes, que serão reconciliados posteriormente.

Em outras palavras, gerenciar dados em microsserviços não é uma implementação: é uma reconstrução mental, onde compensações, replays, idempotência e versionamento de eventos tornam-se parte do dia a dia.


3. A Complexidade Não Some: Ela se Torna Intrinsecamente Distribuída

Um sistema distribuído adiciona variáveis que simplesmente não existem em um monólito: latência, particionamento de rede, retries, duplicidade de mensagens, versionamento de contratos, descoberta de serviços, observabilidade e resiliência.

É aqui que padrões como:

  • Circuit Breaker,
  • Retry com Backoff,
  • Bulkhead,
  • Timeouts,
  • Tracing Distribuído,
  • Mensageria com Garantia de Entrega,

não são “boas práticas”: são necessidades absolutas.

A falácia fundamental da computação distribuída — a de que chamadas remotas podem ser tratadas como chamadas locais — destrói expectativa e leva arquitetos inexperientes a subestimar profundamente o esforço operacional. Em termos objetivos

  1. em um monólito, 99% da complexidade está no código;
  2. em microsserviços, grande parte dela migra para a infraestrutura, a rede e o comportamento emergente de múltiplos componentes.

Quem tenta lutar contra essa realidade acaba recriando um “monólito distribuído”, que – se mal feito – carrega os piores aspectos de ambos os mundos.


4. Sua Organização Será Redesenhada pela Arquitetura

A Lei de Conway não é uma curiosidade teórica; é uma força estrutural. Uma arquitetura distribuída exige equipes distribuídas. Microsserviços não coexistem com estruturas departamentalizadas.

Equipes separadas por camadas (“time do front”, “time do backend”, “time do banco”) apenas reforçam acoplamentos e tornam qualquer mudança um processo burocrático. Microsserviços exigem:

  • Equipes multifuncionais
  • Propriedade completa de um serviço ou domínio
  • Autonomia para deploy, monitoramento e resposta a incidentes

E exigem também a cultura de “You build it, you run it”, que embora repetida à exaustão, é raramente entendida. Operar em produção não é um efeito colateral do desenvolvimento: é parte essencial da entrega de software. Sem isso, microsserviços se tornam apenas “departamentos distribuídos na nuvem”. Não é exagero afirmar: sem transformação organizacional, a adoção de microsserviços fracassa inevitavelmente.


5. Sem Maturidade, Você Apenas Distribui o Caos: de um Projeto Gigante para Vários Problemas Pequenos

Microsserviços amplificam tanto a excelência quanto a incompetência. É por isso que iniciar sistemas desde o primeiro dia em MSA (“microservices by default”) costuma ser um erro estratégico.

O chamado “Microserviço Premium” — custo inicial de automação, infraestrutura, observabilidade, resiliência e mensageria — não é opcional. Ele se paga apenas quando há escala organizacional e de negócio suficientes para justificar a distribuição.

Daí surge a estratégia arquitetural que mais tem se mostrado eficaz:

Monólito Primeiro (Monolith First)

Um monólito modular e bem desenhado é muito mais adequado para descobrir:

  • limites de domínio
  • ciclos reais de mudança
  • responsabilidades naturais
  • necessidades de escala.

Só então serviços devem ser extraídos, idealmente com boundaries já validados. Essa abordagem reduz drasticamente o risco de gerar dezenas de microsserviços com fronteiras mal definidas, resultando em integrações frágeis e coordenações intermináveis.

banner image monolithic vs microservices

Sem maturidade, é transformar um projeto muito ruim em pequenos produtos “ruinzinhos”.


Conclusão: Microsserviços São Mesmo Para o Seu Contexto?

A adoção de microsserviços é, antes de tudo, uma decisão de arquitetura organizacional, não apenas técnica. Sua implementação exige maturidade em práticas de engenharia, domínio profundo sobre consistência distribuída, automação sólida e equipes autônomas alinhadas a domínios de negócio.

As cinco lições apresentadas revelam que:

  • autonomia supera granularidade
  • dados distribuídos exigem padrões robustos como SAGA
  • a complexidade migra para a infraestrutura
  • a organização precisa se reestruturar
  • e maturidade é um pré-requisito, não um objetivo.

O ponto central, portanto, não é “como adotar microsserviços”, mas por que — e principalmente quando.

Em muitos casos, um Monólito Majestoso, modular, coerente e evolutivo, entrega valor mais rápido, com menos risco e menor custo operacional. Em outros, microsserviços são indispensáveis. O custo do sistema distribuído é proporcional ao problema que você precisa resolver?

Responder a isso com honestidade pode ser a decisão mais estratégica da companhia.

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